São muitas as dores do mundo. Não consigo sentir todas. Sou
seletivo com as dores que sinto. Ainda assim, sou muito mais seletivo com as
alegrias. Quase nada me traz alegria. Me sinto culpado por não estar preocupado
com as baleias que encalham, com as vacas que sofrem, plantas que queimam, com
a aposentadoria alheia.
Tem os entregadores de aplicativo também. Motoboys em geral.
Eles não dão setas, eles entram na contra mão, levam nossos retrovisores, furam
os sinais. Eles têm o escapamento da moto aberto. São uns arrombados. Mas em
uma perspectiva mais abrangente, são pobres explorados. Eu estou preocupado com
as cortinas para o meu quarto. Preciso comprar hoje. Quero acordar tarde aos
finais de semana.
Mas sofro profundamente com os pombos que proliferam pela
praça, com os velhos solitários em asilos esperando visita que nunca vem ou
imerso em um passado que nem eles mesmo sabem se existiu ou inventaram para si.
Eu estou ficando velho. Já não me assusta.
Já não faz mais frio no inverno. Sentado à escadaria da
Igreja Matriz ao meio dia de segunda-feira, banhando de luz o meu corpo branco,
tento mais uma vez dar continuidade à leitura de um livro.
Vou tirando as blusas, como um réptil descascando suas
peles.
“- Você é um réptil” - Lembrei da acusação do antigo amigo
Alexandre, feita há muitos anos, quando sai de casa e deixei mulher, emprego,
cidade, livros. Muitos livros. Livros que nunca li, livros que nunca lerei, mas
que gostava de ter.
“- Ter é poder!” - Ler, já são outros quinhentos.
Os parágrafos de “A vida privada das árvores”, nunca chegam
ao fim. Antes de enganchar um ao outro, olho para fora do livro em busca de
personagens que não estão ali. O livro do chileno Alejandro Zambra não me
distrai. Me instiga. Um misto de inveja e sensação de impotência. O
encadeamento das ideias, o estilo da prosa, os humores masoquistas dos pequenos
fracassos cotidianos me fazem sentir mais fracassado que seu personagem. Eu
nunca vou conseguir escrever assim.
Levo o livro para passear há uns 3 meses, mas não consigo
avançar mais que uma página sem interromper a leitura para assistir as pessoas
ao redor. Depois esqueço o que estava lendo e preciso voltar páginas e páginas
e até mesmo recomeçar o livro.
O homem com um chapéu estranho atravessava a praça com uma
sacola. Um chapéu coco, acho que chama. Tipo aqueles do Gordo e Magro. Ao seu
lado, um garoto magro, com as bermudas acima do umbigo, camiseta por dentro e
um chapéu estilo Robin Hood. Sempre os vejo pela manhã, no centro da cidade,
quando venho a pé para o trabalho. Hoje, estamos os três, distantes do
perímetro habitual de nossos encontros. Era uma dupla curiosa. Pai e filho? O
que fazem sempre tão cedo pela cidade? Onde moram? Passo um tempo perdido
nisso, até que outro personagem invada o quadro e mude meu foco.
Há tempos não consigo criar. Nem que seja uma legenda para
uma foto do Instagram. Eu já ouvi podcasts sobre criatividade, experimentei vir
a pé por novos caminhos, assisti a vídeos de coachs falando sobre peixe em um
tanque com um tubarão, colei papel pardo na parede com post-it coloridos cheios
de temas para eu visualizar e escrever sobre. Adiantei meu relógio em sete
minutos para me obrigar a fazer contas para saber as horas e manter minha mente
ativa, entre outras coisas.
[10:20, 21/07/2020] Paulo: tô com bloqueio criativo cara
[10:21, 21/07/2020] Paulo: estou tentando escrever sobre
isso
[10:30, 21/07/2020] Paulo:
o que vc faz quanto tem um bloqueio criativo?
[10:34, 21/07/2020] Nunes: processo criativo: Processo
direto e indireto (escreva tudo que sabe do tema e cruze com o que vc nao sabe
e pesquisou, sem julgamento".. brainstorm, se possível com mais alguém....
Incubação, dá um tempo pra sua cabeça... e depois cruze todas as ideais que vc
pensou com pesquisa sem pesquisa... é chato e trabalhoso, mas não tem erro.
[10:37, 21/07/2020] Paulo: estou com um bloqueio foda. Hoje
estou tentando escrever sobre isso. Sobre não conseguir escrever. Não consegui.
Acho que esse bloqueio tem a ver com os contextos todos que estou vivendo. Mas
isso parece ser uma desculpa, pois todo mundo está vivendo um monte de coisas
também e antes eu já passei por coisas muito piores e conseguia escrever,
criar, produzir. De qualquer forma, acho mais fácil simplesmente não tentar
escrever e só sobreviver a 2020.
O despertador do celular tocou. Queria eu acordar. Pronto.
Sonho ruim. Levanta, lava a cara e vida que segue. Segue o jogo, segue o baile.
Sextô! Mas não. Hoje é segunda-feira. Acabou o banho de sol. O despertador é
para lembrar que tenho cinco minutos para voltar do intervalo do almoço e
registrar o ponto biométrico.















