21 julho, 2020

BANHO DE SOL


São muitas as dores do mundo. Não consigo sentir todas. Sou seletivo com as dores que sinto. Ainda assim, sou muito mais seletivo com as alegrias. Quase nada me traz alegria. Me sinto culpado por não estar preocupado com as baleias que encalham, com as vacas que sofrem, plantas que queimam, com a aposentadoria alheia.

Tem os entregadores de aplicativo também. Motoboys em geral. Eles não dão setas, eles entram na contra mão, levam nossos retrovisores, furam os sinais. Eles têm o escapamento da moto aberto. São uns arrombados. Mas em uma perspectiva mais abrangente, são pobres explorados. Eu estou preocupado com as cortinas para o meu quarto. Preciso comprar hoje. Quero acordar tarde aos finais de semana.

Mas sofro profundamente com os pombos que proliferam pela praça, com os velhos solitários em asilos esperando visita que nunca vem ou imerso em um passado que nem eles mesmo sabem se existiu ou inventaram para si.

Eu estou ficando velho. Já não me assusta.

Já não faz mais frio no inverno. Sentado à escadaria da Igreja Matriz ao meio dia de segunda-feira, banhando de luz o meu corpo branco, tento mais uma vez dar continuidade à leitura de um livro.

Vou tirando as blusas, como um réptil descascando suas peles.

“- Você é um réptil” - Lembrei da acusação do antigo amigo Alexandre, feita há muitos anos, quando sai de casa e deixei mulher, emprego, cidade, livros. Muitos livros. Livros que nunca li, livros que nunca lerei, mas que gostava de ter.

“- Ter é poder!” - Ler, já são outros quinhentos.

Os parágrafos de “A vida privada das árvores”, nunca chegam ao fim. Antes de enganchar um ao outro, olho para fora do livro em busca de personagens que não estão ali. O livro do chileno Alejandro Zambra não me distrai. Me instiga. Um misto de inveja e sensação de impotência. O encadeamento das ideias, o estilo da prosa, os humores masoquistas dos pequenos fracassos cotidianos me fazem sentir mais fracassado que seu personagem. Eu nunca vou conseguir escrever assim.

Levo o livro para passear há uns 3 meses, mas não consigo avançar mais que uma página sem interromper a leitura para assistir as pessoas ao redor. Depois esqueço o que estava lendo e preciso voltar páginas e páginas e até mesmo recomeçar o livro.
O homem com um chapéu estranho atravessava a praça com uma sacola. Um chapéu coco, acho que chama. Tipo aqueles do Gordo e Magro. Ao seu lado, um garoto magro, com as bermudas acima do umbigo, camiseta por dentro e um chapéu estilo Robin Hood. Sempre os vejo pela manhã, no centro da cidade, quando venho a pé para o trabalho. Hoje, estamos os três, distantes do perímetro habitual de nossos encontros. Era uma dupla curiosa. Pai e filho? O que fazem sempre tão cedo pela cidade? Onde moram? Passo um tempo perdido nisso, até que outro personagem invada o quadro e mude meu foco.

Há tempos não consigo criar. Nem que seja uma legenda para uma foto do Instagram. Eu já ouvi podcasts sobre criatividade, experimentei vir a pé por novos caminhos, assisti a vídeos de coachs falando sobre peixe em um tanque com um tubarão, colei papel pardo na parede com post-it coloridos cheios de temas para eu visualizar e escrever sobre. Adiantei meu relógio em sete minutos para me obrigar a fazer contas para saber as horas e manter minha mente ativa, entre outras coisas.

[10:20, 21/07/2020] Paulo: tô com bloqueio criativo cara
[10:21, 21/07/2020] Paulo: estou tentando escrever sobre isso
 [10:30, 21/07/2020] Paulo: o que vc faz quanto tem um bloqueio criativo?
[10:34, 21/07/2020] Nunes: processo criativo: Processo direto e indireto (escreva tudo que sabe do tema e cruze com o que vc nao sabe e pesquisou, sem julgamento".. brainstorm, se possível com mais alguém.... Incubação, dá um tempo pra sua cabeça... e depois cruze todas as ideais que vc pensou com pesquisa sem pesquisa... é chato e trabalhoso, mas não tem erro.

[10:37, 21/07/2020] Paulo: estou com um bloqueio foda. Hoje estou tentando escrever sobre isso. Sobre não conseguir escrever. Não consegui. Acho que esse bloqueio tem a ver com os contextos todos que estou vivendo. Mas isso parece ser uma desculpa, pois todo mundo está vivendo um monte de coisas também e antes eu já passei por coisas muito piores e conseguia escrever, criar, produzir. De qualquer forma, acho mais fácil simplesmente não tentar escrever e só sobreviver a 2020.

O despertador do celular tocou. Queria eu acordar. Pronto. Sonho ruim. Levanta, lava a cara e vida que segue. Segue o jogo, segue o baile. Sextô! Mas não. Hoje é segunda-feira. Acabou o banho de sol. O despertador é para lembrar que tenho cinco minutos para voltar do intervalo do almoço e registrar o ponto biométrico.

25 junho, 2018

VULCAN MISTI

Talvez essa tenha sido minha maior façanha quando penso em desafios envolvendo superação física e mental. Uma aventura imensamente maior que minha capacidade de registrar em foto ou vídeo.
Minha incapacidade em encontrar palavras ou fazer uma edição decente de vídeo me faz recorrer a Paulo Coelho, sim, o mago contestado das letras e do sucesso editorial. É atribuído a ele o texto que você lê abaixo:

A) ESCOLHA A MONTANHA QUE DESEJA subir: não se deixe levar pelos comentários de outros, dizendo “aquela é mais bonita”, ou “esta é mais fácil”. Você irá gastar muita energia e muito entusiasmo para atingir seu objetivo, portanto, é o único responsável, e deve ter certeza do que está fazendo.

B) Saiba como chegar diante dela: muitas vezes, a montanha é vista de longe - bela, interessante, cheia de desafios. Mas quando tentamos nos aproximar, o que acontece? As estradas a circundam, existem florestas entre você e seu objetivo, o que aparece claro no mapa é difícil na vida real. Portanto, tente todos os caminhos, as trilhas, até que um dia você esteja em frente ao topo que pretende atingir.

C) Aprenda com quem já caminhou por ali: por mais que você se julgue único, sempre alguém teve o mesmo sonho antes, e terminou deixando marcas que podem facilitar a caminhada; lugares onde colocar a corda, picadas, galhos quebrados para facilitar a marcha. A caminhada é sua, a responsabilidade também, mas não se esqueça de que a experiência alheia ajuda muito.

D) Os perigos, vistos de perto, são controláveis: quando você começa a subir a montanha dos seus sonhos, preste atenção ao redor. Há despenhadeiros, claro. Há fendas quase imperceptíveis. Há pedras tão polidas pelas tempestades que se tornam escorregadias como gelo. Mas se você souber onde está colocando cada pé, irá notar as armadilhas, e saberá contorná-las.

E) A paisagem muda, portanto, aproveite: claro que é preciso ter um objetivo em mente - chegar ao alto. Mas à medida que se vai subindo, mais coisas podem ser vistas, e não custa nada parar de vez em quando e desfrutar um pouco o panorama ao redor. A cada metro conquistado, você pode ver um pouco mais longe, e aproveite isso para descobrir coisas que ainda não tinha percebido.

F) Respeite seu corpo: só consegue subir uma montanha quem dá ao corpo a atenção que merece. Você tem todo o tempo que a vida lhe dá, portanto caminhe sem exigir o que não pode ser dado. Se andar depressa demais, irá ficar cansado e desistir no meio. Se andar muito devagar, a noite pode descer e você estará perdido. Aproveite a paisagem, desfrute a água fresca dos mananciais e das frutas que a natureza generosamente lhe dá, mas continue andando.

G) Respeite sua alma: não fique repetindo o tempo todo “eu vou conseguir”. Sua alma já sabe disso, o que ela precisa é usar a longa caminhada para poder crescer, estender-se pelo horizonte, atingir o céu. Uma obsessão não ajuda em nada a busca do seu objetivo, e termina por tirar o prazer da escalada. Mas atenção: tampouco fique repetindo “é mais difícil do que eu pensava”, porque isso o fará perder a força interior.

H) Prepare-se para caminhar um quilômetro a mais: o percurso até o topo da montanha é sempre maior do que o que você está pensando. Não se engane, há de chegar o momento em que o que parecia perto ainda está muito longe. Mas como você se dispôs a ir além, isso não chega a ser um problema.

I) Alegre-se quando chegar ao cume: chore, bata palmas, grite aos quatro cantos que conseguiu, deixe que o vento lá em cima (porque lá em cima está sempre ventando) purifique sua mente, refresque seus pés suados e cansados, abra seus olhos, limpe a poeira do seu coração. Que bom, o que antes era apenas um sonho, uma visão distante, agora é parte da sua vida, você conseguiu.

J) Faça uma promessa: aproveite que você descobriu uma força que nem sequer conhecia e diga para si mesmo que a partir de agora irá usá-la pelo resto de seus dias. De preferência, prometa também descobrir outra montanha, e partir para uma nova aventura.



L) Conte sua história: sim, conte sua história. Dê seu exemplo. Diga a todos que é possível e outras pessoas então sentirão coragem para enfrentar suas próprias montanhas.


10 novembro, 2016

PARE DE SUFRIR


Eu vivia em Guadalajara, quando a cidade sediou os Jogos Panamericanos de 2011. Na ocasião, A rede Record investiu alto na cobertura do evento. Todo dia encontrava com alguma equipe ou com o pessoal da técnica da emissora.

O mais curioso, da perspectiva dos moradores de Guadalajara, era tomar conhecimento que as equipes de TV brasileira que eles viam pelas ruas eram da emissora do Pare de Sufrir, como é conhecida a Igreja Universal do Reino de Deus em terras tapatías.

A Universal, no México, se identifica assim nas fachadas das igrejas, em seu site e nos programas televisivos que são transmitidos nas madrugadas do Galavisión, canal 4 de Guadalajara.

Assim como no Brasil, as madrugadas na cidade mexicana estavam ocupadas por pastores brasileiros que entre outras coisas expulsam demônios mexicanos em exorcismos proferidos em um portuñol bem pior que o meu. "Porque somos nosotros que escorremos lo camiño".

Não por acaso, um dos bares mais descolados e de moda na “cena” alternativa de Guadalajara também se chama Pare de Sufrir. O forte da casa é o Mezcal, bebida que assim como a tequila é produzida a partir de uma planta chamada Agave. Contudo, é considerada mais rústica que sua irmã mais famosa, a tequila, que no México é El Tequila. Ou seja: macho.

Neste templo ecumênico, o garçom é seu pastor e o mezcal não lhe faltará

01 setembro, 2016

COLABORAÇÃO - CORRENTE DO BEM

Passar um pouco do tempo com algumas pessoas em situação de rua em Jacareí me fez pensar no tema de outra forma. Pensar em escolhas, em realidades e na dificuldade de adentrar em outras dimensões para além de nós mesmos. E na difícil tarefa de nos resinificar e transformar nossas vidas

05 agosto, 2016

EU LIRICO FEMININO

- Eu gostava mais de como você era antes.

Silêncio.  Ela escutou o que ele dizia e tentava se lembrar de como era antes. Foi aí que ela teve certeza que ele não queria o bem dela.

10 julho, 2016

VALE DEL COLCA

Nas terras altas de Arequipa, Peru, está o Rio Colca.

Lá no alto da montanha, por volta dos 4 mil metros, vários pueblos se espalham às margens desse rio, no alto do Canyon del Colca, um dos mais profundos do mundo.

A ideia era fazer um trekking descendo o Canyon, caminhando por pueblitos ao longo do  rio e subir de novo.



Três dias. Sobe e desce em 16 km mais ou menos.

Acordar 2h30 em Arequipa e esperar a van com o grupo. O rolê todo, com transporte, comida, cabanas e guia saiu por 150 soles (1/1 com o real). São umas 3h30 de viagem até Chivay.

Montanhas nevadas, vulcões e alpacas pelo caminho. Atingimos a altitude de 5 mil metros e você  entende porque te deram um cobertor quando entrou no carro. Faz frio, é estranho. Você se lembra de nunca mais tecer críticas aos jogadores de futebol quando eles reclamarem da altitude.

Seguimos ao mirante Cruz del Condor, onde reza a lenda poderíamos avistar os condores rasgando os céus andinos. Há 17 anos estive nesse mirador e não vi nada por causa da neblina. Agora vi dois condores aterrissados la embaixo na pedra. Não tive sorte.






Mais uns 20 minutos e saltamos no inicio da trilha. Faz frio, depois faz calor, depois faz tudo junto. Somos 14 pessoas com o  guia. O grupo dispersa. No fundo do Canyon, uma ponte pênsil, 6 km montanha abaixo é o ponto de encontro. Caminhar, admirar, fotografar, cuidar pra não escorregar. Paisagens que mudam a cada minuto.




Canadenses, belgas, franceses, estadounidense, holandeses e um brazuca speaking the book is on the table. Entramos na trilha por volta das 9h30. Pouco mais do meio dia, chego à ponte. Uma babilônia de dezenas de pessoas está por ali. Alguns farão o trekking em dois dias. Esses tem pouco tempo a perder.

Anoto, fotografo. Vontade de compartilhar. A mente voa.

Às 13h30 chegamos a uma comunidade, San Juan de Chucho. Ali, banho quente, sopa, batata, pollo, chá de coca e cabana. Ócio.


No fundo do Canyon não pude ver o pôr do sol. A noite apenas chega. As estrelas não aparecem, nem a lua. No fundo da montanha, se escuta apenas o rio e o vento.

O vale verde onde se cultivam frutas e cereais contrasta com o árido da montanha. A temperatura também é  amena.

Divido a cabana com um holandês portador de uma deficiência de mobilidade na perna esquerda. Seu nome é Mikael e não consigo deixar de me impressionar em como ele encarou a descida, levando apenas duas horas a mais que o resto do grupo. Mas foi muito pra ele. Com dificuldade de se equilibrar e transpor pedras e desníveis, ele resolve continuar os dois dias restantes no lombo de uma mula.

O segundo dia começa após o desayuno e la pelas 8h já estamos no trecho. Agora caminhamos  margeando o rio, cruzando com um outro local pelo caminho até uma forte subida que nos leva ao povoado de Coshñirwa, depois Malata.


Daí descer até o fundo novamente a Sangalle, o famoso oásis do Colca, que na verdade é um conjunto de hostels e cabanas cercados de muito verde em meio ao ocre da montanha.
Lá, piscina, banho frio, chegar ate o rio, olhar, olhar e se impressionar com os paredões acima. Dali não conseguimos ver, mas atrás  da primeira parede de pedra se erguem montanhas com picos nevados, que somente na subida, temos a perspectiva de como é fundo o Canyon






O terceiro dia se inicia às 4 da madruga. Subimos na escuridão até que as primeiras luzes revelem os picos nevados. O sol vai nascendo no sentido oposto ao que estamos seguindo. As montanhas vão mudando de cor conforme a luz vai surgindo. Conforme vamos serpenteando a montanha, vamos observando a parede do outro lado mudando de cor, a cada novo angulo se revelam novas formas e parece que você já não está no mesmo lugar.


A subida é dura. A altitude castiga. O corpo esquenta, transpira. O vento te castiga e o sol da altitude te queima a cara. O coração dispara. Você para, respira, olha pra cima, vê o que falta e desanima pra se animar logo em seguida. Somam-se a você  dezenas de outros trilheiros que pernoitaram no oásis. De repente, mulas pedem passagem, em uma delas está meu amigo holandês.


Lá pelas nove estamos no topo. De lá, caminhamos a Cabanaconde onde a van nos espera. Dali, parte do grupo segue a Puno, outros voltam a Arequipa. 

É estranho pensar que nunca mais esse grupo se reunirá. Provavelmente nunca verei nenhuma dessas pessoas, algumas se tornarão contatos em redes sociais e com o tempo desaparecerão em meio a outras gentes que se adicionam e não compartilham mais nada. Permanecerá a lembrança do que vivemos, ilustres desconhecidos compartilhando algo extraordinário. Mas afinal, qual a diferença disso com o resto da vida. Pessoas vem e vão. Algumas deixam, outras levam, e tem aquelas que a gente apenas esquece.

Eu decido ficar e explorar outros pueblos do Alto Colca, como Sibayo, Yanque e outros mais. Mas isso é outra história.

Gratidão. Perseverança. Felicidade.




05 julho, 2016

AREQUIPA 2

A culinária arequipenha tem algo em comum com a mexicana: pimenta.
Ontem, pude comprovar um pouco da gastronomia peruana, que foi considerada a melhor da america do sul recentemente.

E fiz isso em La Bendita, uma picanteria, especie de restaurante popular tradicional peruano hoje relegado às periferias da cidade. La Bendita é uma das poucas que esta no centro  histórico  da cidade. Seu proprietário, Roger, se divide entre chef de cozinha e arquiteto. O restaurante está  no interior de um predio centenário que abrigava claustros de um monasterio jesuíta.

Roger é filho de uma tradicional dona de picanteria de Arequipa, se entusiasma com o que faz e é capaz de falar por horas sobre cultura, arquitetura e comida. Parecia uma aula da professora Jerusa ou do Amalio, nos tempos de doutorado na PUC.

Quando disse que era jornalista não me cobrou a comida. O que foi ótimo, porque havia comido pra caramba e tomado chicha de milho, pisco e otras cositas mas. Na verdade, quem me levou a esse lugar foi um arequipenho que conheci no Mexico e que ahora regressou a sua terra, el pinche Pavlov. Desconfio que ele pagou a conta.

No México,  Pavlov fazia comida peruana para os amigos. Aqui, resolveu abrir um restaurante mexicano. Como meu dia foi gastronômico, também passei por lá em busca das memórias de tacos e empanadas de queso.

Cultura, papo, comida, bebida.

LA BENDIATA PICANTERIA 
CLAUSTROS JESUÍTAS

PARECE TOMATE, MAS É ROCOTO, UMA PIMENTA 
PAVLOV, NA COZINHA MEXICANA PERUANA

03 julho, 2016

AREQUIPA 1

Há 17 anos,  eu e meu amigo Renato fizemos a viagem que me marcaria por toda a vida. A viagem que me colocou em contato com a realidade Latino americana com consequências irreversíveis.

Foram quase 50 dias passando por Bolívia, Peru e Chile. Tudo em ônibus e trem. Lago Titicaca, Andes, desertos, montanhas, ruínas, construções coloniais, templos incas e pré colombianos. A cereja do bolo: Machu Picchu, que alcançamos pelo lendário caminho inca.

E foi assim, viajando sem mapa, falando portuñol selvagem que chegamos a Arequipa, la cidade branca aos pés do majestoso vulcão El Misti.

Lá conhecemos um grupo de peruanos, entre eles a Jessica, cuja família nos acolheu e permitiu conhecer um pouco de seu cotidiano, proporcionando aquilo que um turista comum nunca imaginaria.

Meses depois, já no Brasil, recebi Jessica na casa de meus pais, onde morava. Ela ficou por lá cerca de 9 meses, mesmo depois que dois meses após sua chegada eu tenha partido para viver a experiência indigenista, cujo desejo foi reforçado por aquela América que eu havia conhecido na viagem de meses antes.

Isso tudo aconteceu no século passado, 1999. Agora estou aqui de volta. Vim parar meio porque não sabia o que fazer nas férias, meio porque desejava aventura, montanhas e portuñol selvage.

Quando a Jessica, hoje vivendo na Espanha com o marido e dois filhos, me disse que estaria aqui no Peru, tudo fez mais sentido.

E são 17 anos. Estamos mais velhos, a neve que enfeitava o cume do vulcão quase já não está mais lá. Son los cambios climáticos me dizem. Mas o vínculo que estabelecemos segue vivo. Com alegria reencontro minha amiga, minha família peruana. Nunca foi um adeus, foi só um até logo.

O tempo passa, as pessoas passam pela gente. Deixamos noszas marcas no tempo e as pessoas marcam a gente. Estar aqui é reencontrar o elton de 17 anos atrás e descobrir que ele e o elton que me tornei sāo praticamente a mesma pessoa e que de certa forma eu vivi a vida que ele sonhou pra mim.


De cima, parece um deserto. Mas eu vejo apenas possibilidades 

17 anos, parecem apenas semanas.



20 junho, 2016

O DIAGRAMA DA DISCÓRDIA

Era a terceira vez que se encontravam. Riam e pareciam felizes.

As mentes se estranhavam, mas os corpos já eram confidentes.

Talvez o erro tenha sido esse. Pensar quando deveriam sentir.

Entraram em uma discussão hipotética sobre a criação dos filhos que nem sabiam se teriam. Forma de educar, festa de aniversário, férias, nomes, menino ou menina, cachorro ou gato.

No fim do dia, seguiu cada qual no seu canto, sem ao menos ter alguém para discordar.


10 junho, 2016

TERCEIRA IDADE

Um ano a frente desse programa. Nada melhor que falhar de envelhecimento, no mês em que eu próprio envelheço.


16 maio, 2016

MANUEL ESQUECEU A TARTARUGA


Quando a água começou a subir, mesmo sem chuva, ninguém poderia imaginar onde ela ia chegar.

Ninguém poderia imaginar que ela ia cubrir as casas, os fios dos postes, que a Igreja ia cair.

Dona Conceição, moradora do asilo, que ninguém chama de asilo, mas sim de Vila São Vicente de Paulo, em São Luiz do Paraitinga, foi uma das pessoas que precisou deixar tudo para trás, fugindo das águas do rio.

Há mais de dez anos sem o movimento das pernas, foi de cadeira de rodas e tudo, conduzida para um dos botes dos "meninos do rafting" para o outro lado do rio e de lá para um asilo em Taubaté onde permaneceu por quase um ano, até poder voltar à Vila.

Seu Manuel estava com ela. Mas ele nunca voltou.

"Morreu de tristeza"

Tinha saudade da vila, da cidade e sobretudo, do jabuti que na correria deixou para trás.


09 maio, 2016

DILMIRA



Como enfrentar as adversidades sem perder o sorriso e a esperança? Será que apenas determinação é necessária para enfrentar as dificuldades do dia a dia?

Conheça Dilmira Santos Ferreira, que ficou cega desde os 20 anos e há mais de quatro décadas enfrenta os desafios da vida com muita determinação e autonomia

Ela nos ensina que é possível ver além dos sentidos.


31 março, 2016

ENCONTRO


Só se encontravam aos fins de tarde.

Ele não se aguentava de ansiedade. As horas não passavam.

Passou então a adiantar os relógios.

Mas o mundo não se dava por vencido.

Não funcionava ao seu tempo e ele continuava tendo de esperar.

Viveu assim.

Na eterna expectativa do encontro.

28 março, 2016

EU NÃO SABIA


Eu gostei do seu jeito, do seu vestido e achei engraçado que você usava botas felpudas no calor de Cuiabá.

- "Você não é daqui", foi o que eu te disse quando me aproximei.

Você respondeu um não com um movimento de cabeça sem sequer me olhar nos olhos.

Decidi ficar por ali. Vez ou outra te servia da minha cerveja, mas você bebia muito mais do que eu podia. Tentei acompanhar seus passos, mas você se movia muito mais que eu deveria.

Na hora de ir embora, deixei meu carro com um amigo só para te pedir uma carona.

Você dirigia rápido e começou a falar mais rápido ainda. Você me contou que me viu deixando a chave com meu amigo e achou isso atrevido, mas fofo.
Me senti um panda. Selvagem, mas inofensivo.
Te dei um beijo na porta do meu prédio. Você até sorriu para mim.

- Ficou alegre que vai se livrar de mim, né?
- Muito

Escancarou o riso. Você ria em delay, primeiros os lábios e muito depois um som engraçado, baixinho, que explodia em uma gargalhada. Foi aí que eu apaixonei. Azar o seu.

Te chamei para subir. Você respondeu que eu já tinha sido insistente demais para uma noite e me deu o número do seu telefone. Eu te fiz sorrir mais um monte de vezes falando aquelas bobeiras que eu falo e que depois você diria que eram meu stand up car comedy

Você me falou de você, me contou que tinha perdido seu tio há poucos dias e de como isso te deixava tão triste. Me falou que era nova na cidade, contou da família, colocou músicas para eu ouvir, me disse o que gostava de fazer e te fazia bem.

Naquele momento eu ainda não sabia que estaria ao seu lado em mais algumas perdas e uma par de conquistas. Que eu viciaria em seu beijo, no cheiro do seu cabelo, que você curaria minha insônia com seus cafunés, que eu viciaria em seu corpo

Eu te faria rir mais um monte de vezes, te deixaria de lado muitas vezes. Contaria contigo para alcançar meus sonhos e fecharia os olhos para os seus.

Ali, eu ainda não sabia, mas com o tempo eu iria perder o dom de te fazer sorrir

09 março, 2016

DA SAUDADE

A saudade é permanente no coração de quem já sentiu.

Ela vem como um desejo reparador de uma ordem que talvez nunca tenha existido.

Ela carrega o caos necessário para desorganizar o que fingimos estar organizado

A saudade às vezes não quer esperar.

Na vida regida pelo relógio, certo estava Raul Seixas quando disse que a frieza do relógio não compete com a quentura do meu coração.

A saudade de você é a lenha dessa fogueira que não acaba

Ter você é deixar o fogo consumir o corpo e a alma

15 janeiro, 2016

QUANDO BOWIE ME TIROU PRA DANÇAR

David Bowie teve seus momentos como ator. Eu mesmo o conheci em "Labirinto"

Já suas músicas nunca deixaram de se fazer presentes em diversos filmes, formando cenas que se tornaram clássicos imediatos em minha "cinematografia".

Vamos a algumas delas:

1 - AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL



Ema Watson sentindo-se infinita ao som de Heroes, nos faz acreditar que todos podemos ser heróis ao menos por um dia.

2 - FRANCES HA



Frances sai loucamente ao som de Modern Love, carregando com ela seus problemas e frustrações tão comuns aos jovens adultos ou adolescentes tardios dos tempos atuais.

3 - A VIDA SECRETA DE WALTER MITTY



Mitty reencontra seu destino, enfrenta seu missbehavior, encontra a coragem para ser tudo que é e sonhou ser. E ainda temos Kristen Wiig em "dueto" com Bowie. Um grade momento em um pequeno grande filme.

4 -  BASTARDOS INGLÓRIOS


A vingança de Shosanna ao som de Cat People. Salve Tarantino.

5 - CHRIS HADFIELD IN THE SPACE



Não é um filme, mas sim o astronauta canadense Chris Hadfield que se despediu da Estação Espacial Internacional fazendo um cover de Bowie em Space Oddity. Sensacionante.

6 - LABIRINTO



Aqui conheci esse senhor, interpretando um duende maldito com ares de personagem de anime japônes. Filme clássico. Passei a infância querendo casar com a Jennifer Connelly. Sigo adulto querendo.

7 - DOGVILLE



Young Americans embala a abertura de Dogville, essa viagem perigosa na moral e na vingança. O declínio do Império Americano na voz de Bowie.

8 - A VIDA MARINHA DE STEVE ZISSOU


Como que para reforçar a esquisitice do filme, a trilha está cheia de canções de Bowie em versões de Seu Jorge.

9 - PERDIDO EM MARTE



Jason Bourne módafoka atravessa o planeta vermelho mais facilmente que eu consigo chegar ao litoral em um dia de verão. E é claro, Bowie está por ali para animar nosso marciano.


06 janeiro, 2016

DOGS

Eramos três. Falávamos..

Utilizávamos de substâncias alteradoras da consciência. Entre elas o riso e a alegria.

Na TV, nos revezávamos colocando clipes no Youtube para a apreciação dos demais.

Na vez do guitarrista, ele colocou esse clipe.

Meu cérebro derreteu

04 janeiro, 2016

FLANEUR

Um flâneur é alguém que perambula sem compromisso por uma cidade, alguém que percorre as ruas sem objetivo aparente, mas secretamente atento à história dos lugares por onde passa e à possibilidade de aventuras




01 dezembro, 2015

QUANDO ÉRAMOS CRIANÇAS - BENEDETTI

Quando éramos crianças
os velhos tinham como trinta
uma poça era um oceano
a morte simplesmente
não existia.

em seguida, quando meninos
os velhos eram gente de quarenta
um tanque era um oceano
a morte apenas
uma palavra

Já quando nos casamos
os anciãos estavam com
cinquenta
um lago era um oceano
a morte era a morte
dos outros.

agora veteranos
demos espaço para a verdade
o oceano é por fim o oceano
mas a morte começa a ser
a nossa.

Quando éramos crianças (Mario Benedetti)



24 novembro, 2015

MIDAS

Midas, rei da Frígida, quis que o mundo fosse de ouro graças à magia de sua mão.

Ele precisava transformar em ouro tudo o que tocasse e pediu ao deus Dionísio que lhe concedesse esse poder. E Dionísio, que acreditava no vinho e não no ouro, concedeu.

Então Midas arrancou um galho de fresno e o galho se transformou numa vara de ouro. Tocou um tijolo e virou um lingote. Lavou suas mãos e uma chuva de ouro brotou da fonte.

E quando sentou-se para comer, o manjar arrebentou seus dentes e nenhuma bebida conseguiu passar pela sua garganta. E abraçou sua filha e era estátua de ouro.

Midas ia morrer de fome, sede e solidão.

(Eduardo Galeano, 2008)


18 novembro, 2015

17 novembro, 2015

ANA TIJOUX

Respirar para sacar la voz,
Despegar tan lejos como un águila veloz.
Respirar un futuro esplendor,
Cobra más sentido si lo creamos los dos.
Liberarse de todo el pudor,
Tomar de las riendas,
No rendirse al opresor.
Caminar erguido, sin temor,
Respirar y sacar la voz

16 novembro, 2015

DIA DE PRAIA

O programa DIA DE PRAIA é o relato de uma viagem de 150 crianças para ver o mar, a maioria delas, pela primeira vez.

A iniciativa foi da Associação Fênix, ONG de Jacareí que trabalha no bairro do Rio Comprido com crianças e adolescentes em condição de vulnerabilidade social, aqui em Jacareí.

Sou agradecido pela oportunidade de fazer essa pauta e por ter acompanhado uma senhora de 102 anos entrar no mar pela primeira vez. Dona Francisca, veio de Chapada dos Guimarães para isso. O mais incrível é que eu estive em sua casa, lá em Mato Grosso há cerca de 10 anos para tomar "bença" e agora presenciei esse seu momento abençoado.

Fiquei muito satisfeito em poder contar essas histórias, em participar da realização do sonho de alguém, de centenas de alguénzinhos que crescerão acreditando que coisas boas podem acontecer. Fundamental em tempos de desesperança. Da desesperança do dia a dia, das pequenas coisas que parecem sem importância.

Nesses momentos, me encontro com o jornalista que um dia sonhei ser. Momentos raros em que o que você sonha para você se encontra com aquilo que de alguma forma você se tornou. Essa sensação é o que me move e moveu sempre em minhas escolhas profissionais, para além da qualidade técnica daquilo que produzo (sempre um horizonte a ser alcançado) e do reconhecimento daquilo que faço como profissional e consequentemente como indivíduo (reconhecimento, essa armadilha deliciosa)

Quero contar histórias, quero te mostrar o que eu vejo, porque estou convencido que olhar a vida com os outros, faz com que ela seja mais bonita.

Essa é a minha fé. Meu deus mora no outro







11 novembro, 2015

HIJOS DE UN MISMO DIOS

Macaco está dizendo que somos todos filhos de um mesmo deus. Belo clipe.

Si somos hijos, hijos de un mismo dios . ¿Por qué siempre caen los mismos, por qué? Oye, dímelo! Si somos hijos, hijos de un mismo dios ¿Por qué los ojos se nublan?  ¿Por qué los ojos se acostumbran a todo este dolor?



03 novembro, 2015

FRACASSAR



"Há algo de bonito nos fracassos que nascem do risco, e não do conforto"
(Ricardo Calil)